O IV centenário do nascimento do Padre António Vieira, figura ímpar da cultura portuguesa e brasileira, é um momento que merece a atenção de todos nós.
É neste sentido que Ponta Delgada, enquanto maior município dos Açores, está, mais uma vez, em estreita ligação com a Hstória, ao assinalar uma efeméride de grande alcance nacional através da inauguração, hoje e aqui, em Lisboa, da exposição colectiva de pintura “O Padre António Vieira nos Açores”.
Falar do Padre António Vieira é evocar a vida de um homem dedicado aos outros, na luta por ideais humanistas, profundamente actuais.
Na verdade, pela tolerância, pelo respeito pela diferença (religiosa ou cultural), pela liberdade e sentido patriótico, depreendemos os ideais defendidos pelo Padre António Vieira e que hoje são transversais à cultura e ao pensamento ocidentais. Aliás, a actualidade do pensamento de Vieira está justamente no seu exemplo de vida e no seu sentido de globalização que, à luz dos nossos olhos, nos parece perfeitamente contemporâneo.
O Padre António Vieira teve uma especial ligação com os Açores. E nós, açorianos, temos uma forte ligação com a obra deste membro destacado da Companhia de Jesus.
Pelo nosso arquipélago esteve alguns meses em 1654, na sequência de uma viagem atribulada que o trazia do Brasil em direcção ao Reino. Com um naufrágio perto do Corvo, foi salvo por corsários holandeses que o deixaram na Ilha Graciosa. Daí o jesuíta passou com os seus companheiros de infortúnio à Terceira e, depois, a S. Miguel. E foi no contacto que criou com Ponta Delgada que se inspirou para fazer o sermão a Santa Teresa, mais tarde publicado.
Entre os seus sermões, o “de Santo António aos Peixes” é talvez o mais célebre mas não é o único. Da sua lavra contam-se mais de 200 sermões e 700 cartas, entre tratados proféticos e escritos filosóficos, teológicos, políticos ou sociais.
De facto, a obra de Vieira é vasta e vem carregada de um simbolismo que molda uma imagem viva do autor. Hoje, ter contacto com a sua obra não é apenas entrar no grande teatro do mundo Barroco. É também descobrir, com maravilha, o infinito universo da palavra, prodígios, subtilezas e meandros da língua.
É neste sentido que, ainda no âmbito das comemorações do Ano Vieirino – ano de celebração de um homem de todos os tempos – , a Câmara Municipal de Ponta Delgada, em parceria com a Universidade dos Açores, inaugura aqui, no espaço “Fernando Pessoa”, no Palácio da Independência, em Lisboa, uma exposição inédita dedicada à obra do Padre jesuíta do século XVII.
Com a concretização deste momento, cumprimos dois grandes objectivos: o de promover alguns dos mais importantes artistas plásticos açorianos da actualidade ao nível nacional, bem como, ao mesmo tempo, o de acrescentar um importante contributo açoriano ao programa das comemorações nacionais do IV Centenário do Nascimento do Padre António Vieira.
Com esta exposição, Ponta Delgada coloca de novo os Açores no mapa nacional da história das ideias e dos eventos culturais. Isso orgulha-nos muito e constitui um estímulo para prosseguirmos com a nossa política cultural, acentuando o papel que a nossa cidade sempre teve e continuará a ter no desenvolvimento e no esclarecimento cultural do arquipélago.
Será sempre neste sentido, com humildade e empenho, que o maior município dos Açores trabalhará para fazer com que sejam promovidos, na justa medida, os valores da nossa cultura local.
Na verdade, a Câmara Municipal de Ponta Delgada e a Universidade dos Açores foram as primeiras instituições regionais a associarem-se à Comissão Nacional para as Comemorações do Ano Vieirino, que desde então decorrem um pouco por todo o País.
As primeiras comemorações oficiais nos Açores realizaram-se na Câmara Municipal de Ponta Delgada, a 30 de Abril de 2008, com uma sessão solene evocativa que incluiu o lançamento do I volume da edição crítica dos Sermões do Padre António Vieira. Na mesma data, foi ainda descerrada a placa toponímica da “Rua Padre António Vieira”, no concelho de Ponta Delgada.
A 20 de Novembro, correspondendo ao desafio lançado pela Universidade dos Açores, a Câmara Municipal inaugurou em Ponta Delgada a exposição colectiva de pintura que hoje apresenta em Lisboa, neste honroso espaço do Palácio da Independência.
Por isso agradeço a colaboração entusiástica que nos foi disponibilizada pela muito prestigiada “Sociedade Histórica da Independência de Portugal”.
Permitam-me também aqui uma justa palavra de público reconhecimento e felicitação aos 11 artistas plásticos dos Açores que aceitaram o nosso desafio de transpor para a tela a sua própria visão do sermão de Vieira em Ponta Delgada.
Agradeço, desde logo, aos que nos honram com a sua presença nesta cerimónia inaugural: Filipe Franco, Luís França Machado, Nina Medeiros, Paula Mota, Tomás Borba Vieira e Victor Almeida.
E agradeço também a todos os outros que, embora representados na exposição, não conseguiram estar pessoalmente presentes nesta oportunidade: Carlos Carreiro, José Nuno da Câmara Pereira, Luís Brilhante, Maria José Cavaco e Urbano.
Com esta iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Ponta Delgada e da Universidade dos Açores, além de estarmos a promover a afirmação dos ideais de Vieira junto do público em geral e a revelar a expressão da açorianidade deixada nas ilhas pelo padre jesuíta, estamos também a fortalecer laços da nossa história com a contemporaneidade do quotidiano, que marcam, efectivamente, as raízes sócio-culturais de todos os açorianos.
Aliás, como disse o próprio Padre António Vieira – a que Fernando Pessoa chamou “o imperador da língua portuguesa” – “a história é aquele espelho em que, olhando para o passado, se antevêem os futuros”.
Com um passado cultural rico através de contributos marcantes como o do Padre António Vieira, Ponta Delgada projecta para o seu futuro um compromisso cada vez mais articulado, claro e conciso para com todos aqueles que fazem da maior cidade dos Açores o seu espaço de vivências sociais, profissionais e culturais.
Berta Cabral
Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada